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Retomar a bandeira do brasil (ou: nossa bandeira sempre foi vermelha)

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Por Fabio Rodrigues Filho

“Mil sonhos serão urdidos na cidade
Na escuridão, no vazio, há amizade
A velha amizade
Esboça um país mais real
Um país mais que divino”

(Falou amizade – Caetano Veloso)

“Já tive um país pequeno, tão pequeno / que andava descalço dentro de mim / um país tão magro que, no seu firmamento, / Não cabia senão uma estrela menina / tão tímida e delicada, que só por dentro brilhava / Eu tive um país escrito sem maiúscula / Não tinha fundos para pagar um herói / Não tinha panos para costurar bandeira / Nem solenidade para entoar um hino / Mas tinha pão e esperança pros viventes / e tinha sonhos pros nascentes / Eu tive um país pequeno”

(Poema Didáctico – Socorro Lira / Mia Couto)

“Tomem no peso das pedras dos seres / Que nunca sonharam com asas na imaginação  / Vivem na superfície da solidão /Como falar com eles de uma nação?”

(Abrindo estradas – Manduka / Escutar versão de Ilessi)

– Em 2019, fui à exposição “Epistemologias Comunitárias: arte de autoria negra” [1], no Centro Cultural da UFMG. Em um dos cantos do ambiente expositivo, estava uma obra do artista Desali, da qual me escapa o nome e uma imagem do trabalho, que consistia, à grosso modo, na reprodução da bandeira do Brasil com buchas de lavar prato. A bandeira, ali, no chão, nas cores verde e amarelo (ambas em tom carcomido pelo uso das buchas), expunha-se sem a esfera azul, sem estrelas e sem palavras de ordem. Estando no chão, descalça, em primeiro momento, a bandeira denunciava já o nosso olhar que supostamente se colocava em estatura superior a ela.  Além do que me restou da sensação que tive no primeiro contato com o trabalho, nada mais sei da obra. Reuni aqui, nesta proposição, outros trabalhos que encontrei e que, ao meu ver, avizinham-se daquele de Desali: ao retomar o símbolo nacional, o desmontam; ao aproximar a bandeira da concretude da vida, do presente e das lutas por justiça social, a desoficializa.

– Em cena de um filme recente, Grace Passô, diretora e atriz, acorda de um sonho (marcado por vozes em chamas e brasas crepitando). Despertar significa, na narrativa, descobrir que o Brasil é um sonho. Trata-se de uma cena do curta-metragem República (15’, 2020). Entre sonho e realidade, entre narrativa e meta-linguagem, um encontro inesperado irrompe: a vinda impávida de uma xamã informa que se o Brasil de alguns acabou, o dele nunca existiu. Contudente cena em um cenário de pandemia e de crise política generalizada no país. A bandeira do Brasil, tal com conhecemos, foi criada e instituída dias após a proclamação da república, em 1889. Quatro dia depois, para ser mais preciso, e nesse intervalo figurou como símbolo da nação uma bandeira que nada mais era do que um plágio da bandeira dos EUA. Lembro, pela aproximação dessas discussões sobre Repúblicas (o filme e o Estado), de uma cena recente, em março de 2020, quando um imigrante haitiano [2] profere, em frente ao Palácio da Alvorada: “Bolsonaro acabou…”

– A farsa da grande narrativa: “(…) A melhor maneira de arrematar a história do Brasil de uma maneira edificante é dizer que mesmo os índios e negros sendo esfolados e mortificados, ainda ergueram a bandeira da brasilidade. Mesmo com os brancos descendo a chibata nos negros e índios, aqueles índios e negros eram tão cristãos, tão compassivos e devotos que estavam levantando a bandeira do Brasil escrita ‘ordem e progresso’. Então é um épico totalmente picareta e mistificador da nossa formação” (Ailton Krenak, 2018)[3].

– Ao escrever sobre uma série realizada por Jaime Lauriano junto a artesãs das cinco regiões do Brasil, Hélio Menezes (2019) observa que o artista “toma aqui a oficialidade pelo seu revés, cônscio de que a verdade da história (se alguma há), tal como o bordado, se encontra em seu avesso”. Trata-se da série Bandeira Nacional (2016)[4] que, ainda nas palavras de Menezes, são, no espaço expositivo, arremedos paródicos e desoficializantes do Estado. A expressão parece justa ao trabalho e, guardadas as diferenças (e com a licença do desvio de abertura), diríamos que, aqui, também reside algo desoficializante, na medida em que estes trabalhos colocam em cena algo que o símbolo, a bandeira, parece silenciar ou susbsumir. “O avesso do mesmo lugar” – como cantou a Estação Primeira de Mangueira, em 2019 –, ou “a história que a história não conta”. Entre o paródico e o mimético, estaríamos falando de um exercício de “escovar a bandeira a contrapelo”?

– “Nunca houve um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie. E, assim como ele não está livre da barbárie, também não o está o processo de sua transmissão, transmissão na qual ele passou de um vencedor a outro” (W. Benajmim, 1940).

– Lembremos que, ao contrário do que se possa pensar, o verde e amarelo instaurado como cores da bandeira não são, a rigor, representações das matas e das riquezas (dos ouros), mas as cores das duas grandes Casas que originaram o Brasil independente: “o verde representava a Casa de Bragança, de dom Pedro 1º, de Portugal, e o amarelo representava a Casa de Habsburgo, de Maria Leopoldina, da Áustria”, como nos diz Lais Modelli, em matéria da BBC, em 2019[5]. O globo azul chega depois, substituindo o brasão da monarquia e inscrevendo um ponto de vista do céu de 15/11 no Rio de Janeiro. A esfera, como sabemos, recebe a faixa branca onde se lê: “Ordem e Progresso”.

– “ (..,) O amor vem por princípio, a ordem por base
O progresso é que deve vir por fim
Desprezaste esta lei de Auguste Comte
E foste ser feliz longe de mim”

(Noel Rosa e Oreste Barbosa, Positivismo, 1933)

– A frase que inspira a canção acima, e também a bandeira do Brasil, é de autoria do francês Augusto Comte – máxima estruturada e que estrutura a lógica positivista: amor, ordem e progresso. Ausente na frase da bandeira, poderíamos dizer que o amor, como um fantasma, incide e viria encarnar anos depois, durante a ditadura militar, em 1964, no terrível slogan ufanista do governo do general  Médici (1969 – 74). Na ditadura, como nos lembra Jaime Lauriano, “institucionalizou-se os símbolos nacionais tornando lei os usos e aplicações destes símbolos”. Foi nesse contexto que o amor, ausente do slogan da bandeira, mas firme na ideia, atualizou-se na propaganda “Brasil ame-o ou deixe-o” – frase deprimente que foi recuperada em 2018 por Sílvio Santos, em anúncio pró-bolsonaro no SBT.

– Em resumo, esta proposição compartilha uma série de bandeiras que encontrei ao longo de meses flanando pela internet. Não se trata de um agrupamento de estrelas, mas a tentativa de propor um exercício de constelação, arriscando-se a imaginar com outras bandeiras uma desmontagem para o símbolo nacional – desmontagem que acontece pela retomada e desvio desse arquivo. “Em cada desvio há um gesto singular: andar descalço, bordar, colar, deslocar, reescrever, perfurar, rasgar. Eles lembram gestos cotidianos de recusa ao que a nação impõe como opressão”[6]. Assim, tal como a metáfora do bordado, o título deste processo de curadoria só nomeia quando no seu avesso complementar: “desmontar a bandeira do brasil”, portanto.


Arte criada pela designer e ilustradora Ana Cattini, em 2020.

Mais informações: https://www.instagram.com/p/B9riZEgHHT2/

Deu ruim, de Caetano Costa. Aquarela sobre papel. Recife, 2018. Coleção particular de E.S. Mais informações: https://www.instagram.com/_caetanocosta/

DEU RUIM II, de Caetano Costa
Aquarela sobre papel.
Recife, 2018.
Coleção particular de L.F.





A atriz Ana Luiza Bergmann no protesto contra a Carreata da Morte / Imagem: Moisés Mendes. Frame de vídeo encontrado  em matéria publicada no site Desacato, em abril de 2020.

Mais informações:
http://desacato.info/atriz-resgata-a-bandeira-do-brasil-que-havia-sido-sequestrada-pelas-milicias-de-bolsonaro/?fbclid=IwAR0Zq11X-3-SByR-wN3Zs3EukyJL7DdL0TqalLNPhMvDCvaRaqsTWupvYvc


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Bandeira,
Coletivo DOMA
Abril de 2018

“DO MUNDO –  Em exposição na Adelina Galeria, o coletivo argentino DOMA satiriza a sociedade contemporânea, cuja indecisão existencial já não é mais ‘ser ou não ser’, mas sim ‘crédito ou débito’.” Mais informações: www.dasartes.com.br

Da série: “Cenas para uma vida melhor”, de Marta Neves. Bordado com miçangas e lantejoulas sobre transfer em tecido de algodão / 27 cm x 38,5cm / ano 2020.

Mais informações: www.instagram.com/nevesmarta

o lábaro que ostentas estrelado…“
André Vallilas
22 de maio de 2020

Imagem de divulgação Coalização Negra por Direitos, 2020.

“A Coalizão Negra por Direitos reúne mais de 100 entidades do movimento negro de todo o Brasil na promoção de ações conjuntas de incidência política para o enfrentamento do racismo e do genocídio que recai sobre a população negra.

Pela vida, pelo bem-viver e por direitos, a Coalizão tem atuado em casas legislativas estaduais e municipais, no Congresso Nacional e em instâncias da Organização das Nações Unidas, na construção de um futuro livre de racismo e todas as opressões.”

Acesse: coalizaonegrapordireitos.org.br

Bandeira do Brasil da Mocidade Unida da Mooca. Foto: Romulo Tesi. Mais informações: http://mocidadeunidadamooca.com.br/

Estudos para novos símbolos nacionais, de Linoca Souza. Manipulação digital / 40 cm x 30 cm. Ano 2018/2019. Mais informações: http://www.omenelick2ato.com/

A Bandeira do Brasil da Mangueira, ano 2019 (Foto: Fernando Grilli/Riotur), seguida de imagem de divulgação da fantasia “Maria das Dores Brasil”, do desfile de 2020 da Estação Primeira de Mangueira (foto: Reprodução).

Bandeira símbolo do Movimento Mães de Maio.

Mais informações: https://fundobrasil.org.br/wp-content/uploads/2016/07/livro-maes-de-maio.pdf

Autorx desconhecidx

Cartaz de convocação para ato, coordenado por moradores de favelas do Rio de Janeiro, denunciando os massacres ocorridos em ações policiais (maio de 2019).

Imagem de divulgação do “1° de maio: Dia do trabalhador e da trabalhadora”, criada pelo Conselho Nacional de Saúde.  A postagem foi feita no Facebook e tinha por título “Luto e luta”.

Sinopse: O filme registra a ocupação de uma fazenda no Rio Grande do Sul e investiga as políticas de reforma agrária no Brasil da Nova República e a atuação do MST. Para isso, aborda a história de Rose, uma das líderes cujo sonho é ter um pedaço de terra.

“O Rei da Vela”, peça de Oswald de Andrade, encenada pelo Teatro Oficina Uzyna Uzona. Imagem de divulgação do filme homônimo.

Mais informações: https://teatroficina.com

Arte de @manoelaczr e @eduardotallia, 2019
Ilustração @designativista

Bandeira: Céu azul, de Emmanuel Nassar, Tecido, 90 cm x 130 cm. / Ano 2010. Foto: Romulo Fialdini.

Mais informações sobre o artista e a obra: http://www.emmanuelnassar.com/assets/en-81-18.pdf

Bandeira de Farrapos, de Martha Niklaus. Roupas de moradores de rua / 2.60 x 1.90 m / Ano 1993

https://www.marthaniklaus.com/bandeira-do-farrapos

BANDEIRA NACIONAL ATUALIZADA, de Luana Vitra. Cimento e lama sobre Americano Cru . 13x18cm.

Postagem no perfil de facebook da artista:

“Esse trabalho é uma tentativa de atualizar a coerência da bandeira do Brasil com o que estamos vivendo em âmbito nacional.
Assim colocamos a gravidade do cimento e da lama sobre os corpos dos Americanos Crus, que trazem o desequilíbrio dessas matérias a tona.

A proposta é trocar a bandeira nacional por essa. Então É UMA BANDEIRA PARA TODO BRASILEIRO TER EM CASA. Que assim, mudamos a bandeira do imaginário coletivo por uma que seja de fato coerente com o que está acontecendo.

Obs: Quando a situação do país for diferente essa bandeira deixará de ser produzida.

Onde comprar sua bandeira nacional atualizada:
– Na galeria @quartoamado
– Na @clovisgaleriacafe
– Ou aqui comigo”

bandeira nacional #3, de Jaime Lauriano / Ano 2015
algodão, poliéster e impressão jato de tinta sobre papel-algodão
90 x 90 x 4 cm
Foto: Gui Gomes


“A série de trabalhos “Bandeira Nacional”, busca subverter – a partir de técnicas de tecelagem artesanal – o controle e a regulação deste símbolo. Ou seja, registrar diferentes maneiras de apropriação e alienação da Bandeira Nacional.” Fonte: https://pt.jaimelauriano.com/bandeiras-nacional

Artista desconhecidx.

Capa do livro Pau-Brasil, livro de poesia de Oswald de Andrade, publicado em 1925 pela editora parisiense Au Sans Pareil. A capa foi feita por Tarsila do Amaral, que também ilustrou o livro.

“Amor, Ordem e Progresso Projeto de Arte Financeira”, de Lourival Cuquinha / Notas de real / Ano 2012

Mais informações: https://arteref.com/artista/lourival-cuquinha/

Frame do filme “Lembrar daquilo que esqueci” (2020), de Castiel Vitorino, visto no site do 1° Festival LGBT Online produzido por pessoas TRANS! (MARSHA): https://www.youtube.com/watch?v=hyznIkQHn6Y

Frame do clipe da canção “Sol quadrado” (2020), de Adriana Calcanhotto. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=QwvBtoSRfDM

Frame do filme “Cadê Edson?” (2020), de Dácia Ibiapina. Filme estava disponível no site da Mostra Lona: http://mostra-lona.com.br/

Sinopse: O documentário traz as lutas dos movimentos populares em defesa da moraria e sua relação com o governo brasileiro.

Okê Oxóssi, de Abdias do Nascimento / Acrílica sobre tela / 90 x 60 cm / Ano 1970. Créditos da fotografia: MASP (Museu de Arte de São Paulo)

O Samba do crioulo doido (2004), de Luiz de Abreu.

“A discriminação racial e sua incidência no corpo negro é o centro da peça performática. A partir de elementos indefectivelmente associados ao negro brasileiro – samba, carnaval e erotismo –, e de referências à Pátria branca, o artista cria imagens que falam de racismo, de transgressão como forma de resistência e da importância do corpo na construção da identidade. Pela força da performance, e valendo-se da ironia e do deboche, quer devolver ao corpo-objeto o sujeito roubado, com sentimentos, crenças e singularidades.” (Via VideoBrasil)

Ver mais em: http://site.videobrasil.org.br/canalvb/video/1773116/O_Samba_do_crioulo_doido_by_Luiz_de_Abreu_18th_Festival


[1] A curadoria da exposição foi feita pelxs professorxs e artistas Janaina Barros, Maria Aparecida Moura e Wagner Leite Viana.

[2] Fiz muito esforço para encontrar o nome dele, mas até o momento não consegui. Para saber mais: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painel/2020/05/identidade-de-haitiano-que-disse-a-bolsonaro-que-seu-governo-havia-acabado-e-um-misterio.shtml

[3] Entrevista completa disponível em: https://racismoambiental.net.br/2018/06/02/ailton-krenak-a-potencia-do-sujeito-coletivo-parte-ii/

[4] Para saber mais sobre o trabalho: https://pt.jaimelauriano.com/bandeiras-nacional

[5] Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-46259929

[6] Citação a um comentário de André Brasil em relação a esse texto. Aproveito para agradecer ao André pela leitura, pelas indicações e conversas. Agradeço também a Ingá pela lembrança do amor ausente na frase da bandeira, Alessandra Brito pelas conversas e sugestões,Cláudia Mesquita pela sugestão da cena em Terra Para Rose, e o CachoeiraDoc pelo espaço de conversa dessa ideia, onde foi publicado, em maio de 2020, uma semente dessa proposição: http://www.cachoeiradoc.com.br/festivalimpossivel/fartura/

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